Há civilizações que entram nas histórias galácticas por guerras, conquistas ou grandes conflitos. Os T-Ashkeru chamam atenção também por aquilo que sabem fazer.
Na cosmologia de Elena Danaan, eles são conhecidos como excelentes geneticistas, engenheiros e construtores. Suas cidades misturam arquitetura e natureza, seus materiais de construção teriam sido adotados por outros povos e sua educação procura desenvolver as aptidões específicas de cada criança. Mesmo longe de Nyan, algumas de suas colônias continuam sendo reconhecidas justamente pelas cidades que constroem.
E existe uma curiosa coerência nisso tudo: os próprios T-Ashkeru seriam resultado de um projeto genético.
Sua história começa entre os antigos povos humanos de Lyra, passa por Vega e termina — ou talvez comece de verdade — em Sirius B, onde o encontro com uma espécie completamente diferente daria origem ao povo que hoje habita Nyan.
De Vega a Sirius B
Segundo Elena Danaan, os ancestrais dos T-Ashkeru pertenciam aos Taal, uma das grandes linhagens humanas associadas às antigas civilizações de Lyra. Depois das guerras que devastaram aquela região, diferentes grupos Taal se espalharam por outros sistemas.
Uma dessas populações passou por Vega e posteriormente chegou à região de Sirius acompanhada pelos Katayy — outro ramo de origem Taal que também havia vivido em Vega e que, segundo Danaan, estabeleceu sua própria civilização em Kashta, um mundo de Sirius A.
Parte desses colonos acabou chegando a Sirius B e ali encontraram uma população indígena de seres do tipo grey.
Em vez de tentar permanecer biologicamente iguais aos seus antepassados, os colonos Taal teriam recorrido a uma prática que Danaan atribui a diferentes povos de origem lyrana: adaptar sua própria genética às condições do novo ambiente. Nesse caso, cruzaram sua linhagem com a dos greys locais.
Com o passar das gerações, a população grey original desapareceu como grupo distinto, mas sua genética continuou presente no novo povo que surgiu dessa união: os Ashkeru-Taal, ou T-Ashkeru.
A hibridização também aparece em sua aparência. Eles são descritos como um pouco menores e mais esguios do que muitos dos humanos de origem lyrana, com rosto triangular, maçãs do rosto marcadas e olhos maiores, alongados e ligeiramente inclinados.
Os traços são humanos, mas não completamente.
Nyan — ciência, arquitetura e vida cotidiana
O principal mundo T-Ashkeru é Nyan, onde está localizado seu governo. A partir dali, sua civilização se expandiu para outros mundos de Thula e, posteriormente, para sistemas muito mais distantes.
É também em Nyan que aparece uma das características mais marcantes desse povo: a maneira como constroem suas cidades.
Apesar de sua tecnologia avançada, os centros urbanos T-Ashkeru não são descritos como grandes extensões artificiais separadas do ambiente natural. Eles teriam preservado uma antiga tradição lyrana segundo a qual natureza e urbanização devem ocupar proporções semelhantes dentro das cidades.
Os bairros são organizados em distritos, enquanto vegetação, jardins e elementos naturais fazem parte do planejamento urbano. Tecnologia e natureza não aparecem como forças opostas, mas como componentes de um mesmo espaço.
Essa reputação não se limita ao desenho das cidades.
Danaan atribui aos T-Ashkeru a criação de materiais extremamente resistentes a diferentes tipos de radiação, adequados a ambientes planetários muito distintos. Um deles teria uma propriedade particularmente incomum: ser translúcido quando observado de um lado e opaco quando visto do outro. Segundo a Encyclopedia Galactica, técnicas de construção desenvolvidas em Sirius B acabaram influenciando outras civilizações da galáxia.
Há detalhes mais cotidianos também.
A alimentação T-Ashkeru é descrita como predominantemente vegetal, seguindo outra tradição atribuída aos antigos povos de Lyra. Em um relato de 2023 sobre uma visita a Nyan, Danaan descreveu ainda refeições produzidas por replicadores e uma espécie de mapa holográfico utilizado para visualizar diferentes sistemas e mundos da região.
São pequenos detalhes, mas ajudam a formar uma imagem menos abstrata de Nyan: não apenas uma capital galáctica ou sede de governo, mas um lugar onde pessoas vivem, estudam, trabalham, comem e constroem suas cidades.
Uma escola para cada talento
A educação é outro aspecto curioso da cultura T-Ashkeru.
Segundo Danaan, as crianças não seguem necessariamente um único percurso escolar padronizado. Suas aptidões são observadas desde cedo e elas passam a estudar com outras crianças que demonstram habilidades ou interesses semelhantes.
A ideia não seria formar grupos de “melhores” e “piores”, mas criar ambientes nos quais cada capacidade pudesse ser desenvolvida com maior profundidade.
Uma criança com determinada inclinação teria ao seu redor outras crianças igualmente interessadas naquela área. Em vez de competir entre si, elas seriam incentivadas a trocar experiências, estimular umas às outras e avançar juntas.
É uma visão de educação bastante diferente daquela baseada apenas em um currículo igual para todos.
A pergunta central deixa de ser simplesmente “o que toda criança precisa aprender?” e passa a incluir também “no que esta criança pode se tornar realmente boa?”
Ashtar — uma história bem mais antiga
É difícil falar dos T-Ashkeru sem chegar ao nome Ashtar.
Mas Ashtar não começa com Elena Danaan.
O nome circula na cultura dos contatados desde os anos 1950. Em 1952, o norte-americano George Van Tassel afirmou receber comunicações telepáticas de uma entidade chamada Ashtar, apresentada como comandante de forças espaciais preocupadas, entre outras coisas, com o desenvolvimento de armas nucleares na Terra.
A história se espalhou rapidamente pelo movimento contactista. Nas décadas seguintes surgiram diferentes pessoas alegando contato com Ashtar, e o personagem passou a aparecer associado a enormes frotas, confederações extraterrestres e movimentos espiritualistas.
Danaan incorpora esse nome a sua própria cosmologia, mas lhe dá outra interpretação.
Em sua versão, Ashtar seria originalmente um título militar, e não necessariamente o nome de uma única pessoa. Ela também diferencia duas organizações que muitas vezes aparecem misturadas em outras tradições: a antiga Ashtar Alliance, também chamada Ashtar Collective, ligada a Sirius B, e o Ashtar Galactic Command, formado posteriormente por dissidentes.
É nessa segunda estrutura que os T-Ashkeru ganham um papel importante.
Quando uma aliança é tomada por dentro
Segundo a narrativa apresentada por Danaan, diferentes civilizações da região de Sirius formaram no passado uma estrutura defensiva conhecida como Ashtar Alliance, ou Ashtar Collective.
Com o tempo, essa organização teria sido progressivamente infiltrada por forças ligadas aos Nebu e aos Ciakahrr, duas das grandes potências hostis presentes em sua cosmologia.
Os relatos mais antigos sobre Thula descrevem uma situação politicamente complicada. T-Ashkeru dividiam alguns mundos com diferentes populações reptilianas e híbridas, o que exigia acordos diplomáticos e até compartilhamento de tecnologia.
Parte dos integrantes da Ashtar Alliance percebeu o que estava acontecendo e abandonou a organização.
Desse rompimento teria surgido o Ashtar Galactic Command: uma força militar independente e móvel que passou a cooperar com a Federação Galáctica dos Mundos contra os mesmos grupos que haviam infiltrado a antiga aliança.
Os T-Ashkeru possuem uma relação importante com essa estrutura. Alguns deles são descritos ocupando posições elevadas no comando, enquanto outros atuam diretamente dentro da Federação Galáctica dos Mundos e de seu programa de enviados.
A história política de Sirius B mudaria novamente após a queda dos Nebu. Na cronologia posterior divulgada por Danaan, os povos do sistema teriam se levantado contra a estrutura que ainda controlava parte de Thula. Em 2022, ela relatou uma operação envolvendo forças locais, o Ashtar Galactic Command e a Federação Galáctica dos Mundos que teria encerrado o domínio da antiga Ashtar Alliance.
Na narrativa de Danaan, os T-Ashkeru passam assim de habitantes de um sistema politicamente infiltrado a participantes ativos de sua libertação e reorganização.
Muito além de Nyan
A expansão T-Ashkeru começou dentro do próprio sistema de Thula.
Além de Nyan, a Encyclopedia Galactica registra sua presença em Sathys, em sua lua Syan e em Morgha. As populações desses outros mundos aparecem sob o nome T-Ashkeru-Sharuu; a palavra Sharuu é traduzida como algo próximo de “dos outros mundos”, em referência à origem dessas comunidades fora de Nyan.
Mas a expansão não parou em Sirius B.
As duas edições da Encyclopedia Galactica apresentam diferentes povos derivados de colônias T-Ashkeru, e alguns deles ajudam a perceber até onde essa civilização teria se espalhado.
Os Urumir, por exemplo, estabeleceram-se em Dor Umiron, no sistema Azaran. A mudança de ambiente teria deixado sua pele com tonalidade bronze e os olhos dourados, mas uma característica de Nyan permaneceu evidente: suas cidades são descritas como particularmente belas, construídas com as técnicas de engenharia trazidas de Sirius B.
Os Ymtaal-Sassu escolheram um caminho completamente diferente. Eles vivem em Sas 4, um mundo coberto principalmente por oceanos. Como parte das massas continentais fica muito próxima da superfície da água, desenvolveram cidades parcialmente submersas, alimentadas pela energia constante das ondas. São descritos como um povo amistoso, ligado à Federação e próximo do Ashtar Galactic Command.
Há ainda histórias que parecem quase pequenas aventuras dentro do catálogo.
Os Tash eram originalmente um grupo de cientistas de Nyan em missão para procurar novos minerais e materiais capazes de melhorar o desempenho de suas naves. Perseguidos por uma força Ciakahrr, acabaram caindo em Akrom VIII, no sistema Phaerak.
A nave foi destruída e as comunicações deixaram de funcionar. Isolados, os cientistas entraram inicialmente em conflito com os Khroll, habitantes locais que ainda possuíam um nível tecnológico inferior ao deles. Quando equipes da Federação finalmente encontraram os Tash, os dois povos já começavam a estabelecer comunicação e acordos de paz.
Para não interferir no desenvolvimento dos Khroll, os Tash decidiram permanecer no planeta sem utilizar tecnologias acima do nível disponível à população local. Com o tempo, segundo Danaan, as duas culturas evoluíram juntas até formar uma civilização capaz de viajar pelo espaço.
Outras colônias mostram transformações ainda mais radicais.
Os Jiyal, estabelecidos em Jaktra, voltaram a misturar sua genética com uma população grey local chamada Khree, tornando-se menores e adquirindo uma pele acinzentada. Já os Sabhu-El, descritos posteriormente na Encyclopedia Galactica, adaptaram-se à vida nas camadas atmosféricas de um gigantesco planeta gasoso: sua pele teria adquirido tons azulados e suas pupilas se tornado verde-metálicas, enquanto cidades e grandes estruturas antigravitacionais permanecem suspensas entre as nuvens.
O catálogo T-Ashkeru, portanto, não termina em Nyan. Há povos que ainda carregam sua arquitetura, outros que conservaram suas relações políticas e outros que, depois de milhares de anos em ambientes diferentes, quase poderiam ser considerados novas espécies.
Uma pequena parte de nós?
Existe ainda uma ligação curiosa com a humanidade terrestre.
Em The Seeders, Elena Danaan apresenta aquilo que chama de “Repertório dos 22 Genomas”, uma lista de contribuições genéticas extraterrestres que, segundo sua cosmologia, fariam parte da composição da humanidade atual.
Nessa relação, os T-Ashkeru aparecem na posição 18.
Isso colocaria uma pequena parcela de sua linhagem entre os elementos utilizados na criação ou modificação genética dos humanos da Terra.
Naturalmente, essa afirmação pertence ao universo contactista de Danaan e não possui reconhecimento na genética científica. Dentro de sua cosmologia, porém, ela cria mais uma ligação entre Nyan e a Terra e ajuda a explicar por que os T-Ashkeru aparecem também associados a atividades da Federação em nosso sistema.
Sirius B — o que a astronomia observa
As estrelas envolvidas nessa história existem.
Vega, por onde a linhagem Taal teria passado antes de chegar a Sirius, é uma estrela real situada na constelação de Lyra, a cerca de 25 anos-luz da Terra. É uma das estrelas mais brilhantes do céu noturno e possui um extenso disco de detritos observado por diferentes telescópios.
Sirius está muito mais perto, a aproximadamente 8,6 anos-luz, na constelação do Cão Maior. Aquilo que vemos a olho nu como uma única estrela corresponde a um sistema binário formado por Sirius A e Sirius B.
Sirius A é a estrela extremamente brilhante que domina o sistema. Sirius B é uma anã branca, o remanescente compacto de uma estrela que já esgotou seu combustível nuclear. Apesar de possuir uma massa semelhante à do Sol, seu tamanho é comparável ao da Terra.
As duas estrelas orbitam uma à outra aproximadamente a cada 50 anos.
Até o momento, não existem planetas confirmados orbitando Sirius A ou Sirius B. Observações astronômicas modernas estabeleceram limites cada vez mais precisos para possíveis companheiros, mas nenhum dos mundos descritos nos relatos contactistas foi identificado.
Por isso é importante fazer uma distinção clara: Thula é o nome dado por Danaan ao sistema planetário que ela associa a Sirius B; Nyan, Sathys, Syan e Morgha são mundos pertencentes a essa cartografia relatada, e não objetos reconhecidos atualmente pela astronomia.
Da mesma forma, a astronomia reconhece Sirius como um sistema binário A/B; propostas históricas de uma terceira estrela no sistema não foram confirmadas.
Uma coisa é aquilo que nossos instrumentos conseguem observar.
Outra é aquilo que os relatos contactistas afirmam existir.
As Nações Estelares exploram esse segundo território sem transformar relato em comprovação científica — e sem perder de vista o que a astronomia realmente conhece.
Uma história escrita entre as estrelas
A parte mais interessante dos T-Ashkeru talvez não esteja apenas em seus olhos grandes, em sua genética ou nas tecnologias atribuídas a eles.
Está na trajetória que conecta tudo isso.
Eles descendem de outro povo. Migraram. Encontraram uma espécie diferente. Misturaram-se. Criaram uma nova civilização. Construíram cidades, atravessaram conflitos políticos e depois espalharam colônias por outros sistemas. Algumas conservaram quase intacta a cultura de Nyan; outras voltaram a alterar sua aparência, seus costumes e até sua genética.
Em que momento um povo deixa de ser aquilo que era e passa a ser outra coisa?
Pode ser que esse momento nem exista.
Os T-Ashkeru continuam sendo herdeiros dos Taal sem serem simplesmente Taal. Carregam genética grey sem serem greys. São habitantes de Sirius embora sua história tenha começado muito longe dali. E algumas de suas colônias continuam reconhecendo Nyan como origem mesmo depois de terem se tornado fisicamente muito diferentes dos habitantes daquele mundo.
Existe uma ideia muito terrestre escondida nessa história. Durante milhares de anos, nós também migramos, encontramos outros povos, misturamos culturas, genes, línguas, religiões e maneiras de viver.
Nenhuma identidade humana permaneceu intacta através do tempo, por isso seguimos tentando descobrir de onde viemos.