Um navio rumo ao lugar mais vazio do mundo
No final de 1938, enquanto a Europa se aproximava de outra guerra, um navio alemão deixou o continente em direção à Antártida. Chamava-se Schwabenland. A expedição, comandada pelo capitão Alfred Ritscher, não pertence ao território da ufologia: ela aconteceu.
O Schwabenland era um navio adaptado para operações aéreas, equipado com catapultas que permitiam lançar hidroaviões sobre regiões onde praticamente não existiam mapas confiáveis. Durante poucas semanas do verão austral de 1939, duas aeronaves percorreram milhares de quilômetros sobre a Terra da Rainha Maud e fotografaram uma área imensa do continente. Parte dela recebeu dos alemães o nome de Neuschwabenland — Nova Suábia. Documentos históricos confirmam tanto a expedição quanto seu interesse territorial e econômico.
Até aqui não há mistério. Mas talvez nenhuma expedição antártica do século XX tenha acumulado ao seu redor uma segunda história tão grande quanto a primeira. Nas décadas seguintes surgiriam relatos de instalações subterrâneas, entradas para cavernas aquecidas, submarinos transportando equipamentos e pessoal, uma base conhecida como Base 211, uma cidade chamada Neu Berlin e projetos tecnológicos que teriam sobrevivido à queda do Terceiro Reich.
Em algumas versões, a Antártida teria sido apenas um esconderijo. Em outras, teria sido algo muito maior: o lugar onde um ramo da civilização alemã teria deixado de pertencer à história oficial da humanidade.
Maria Oršić, Vril e as mensagens de Aldebaran
Para entender uma das raízes mais antigas dessa narrativa, é preciso voltar algumas décadas. Uma delas era o Vril, palavra criada em 1871 pelo escritor britânico Edward Bulwer-Lytton no romance The Coming Race, onde designava uma forma extraordinária de energia dominada por uma civilização avançada que vivia no interior da Terra. Embora tenha nascido como ficção, o conceito acabou sendo absorvido por correntes ocultistas e passou, décadas depois, a aparecer associado a sociedades secretas e experiências tecnológicas alemãs.
É nesse ambiente que surge uma das personagens mais conhecidas de toda essa história: Maria Oršić. Segundo a narrativa posteriormente difundida sobre a chamada Vril Gesellschaft, ou Sociedade Vril, a jovem médium teria começado por volta de 1919 a receber comunicações telepáticas provenientes de seres localizados no sistema de Aldebaran. As mensagens teriam chegado por meio de psicografia, prática mediúnica na qual uma pessoa escreve mensagens que acredita receber de uma consciência ou inteligência externa. Parte do material teria sido registrada em uma língua posteriormente identificada como suméria, enquanto outra parte permaneceria inicialmente desconhecida.
O conteúdo, segundo esses relatos, não se limitava a filosofia ou cosmologia. As mensagens conteriam também informações técnicas para a construção de sistemas de propulsão e veículos capazes de voar sem utilizar os métodos convencionais conhecidos na época. Michael Salla apresenta essas comunicações como uma das origens do programa alemão de desenvolvimento de tecnologias não convencionais e afirma que cientistas, entre eles o físico Winfried Otto Schumann, teriam participado das tentativas de transformar aquelas informações em projetos reais.
É a partir daí que começam a aparecer, dentro dessa tradição, nomes que se tornariam famosos décadas depois: os primeiros RFZ, apresentados como protótipos experimentais de aeronaves circulares; os discos Vril, menores e ligados aos projetos atribuídos à Sociedade Vril; e os Haunebu, uma família de discos maiores e progressivamente mais militarizados, posteriormente associada à SS. Algumas versões da narrativa descrevem ainda projetos de dimensões muito maiores, já concebidos não apenas como aeronaves, mas como verdadeiras naves de transporte. A história que começara com médiuns, sociedades esotéricas e mensagens atribuídas a Aldebaran passaria, pouco a pouco, a se misturar com a engenharia militar alemã.
Uma tecnologia real extraordinária
Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha concentrou enormes recursos em projetos que, para os padrões da década de 1940, pareciam antecipar tecnologias que só se tornariam comuns muitos anos depois. O exemplo mais conhecido é o V-2, primeiro míssil balístico de longo alcance operacional da história e descendente direto das pesquisas conduzidas em Peenemünde pela equipe de Wernher von Braun. Em testes realizados durante a guerra, versões experimentais do foguete chegaram a altitudes superiores a 100 quilômetros, atravessando o limite que hoje utilizamos convencionalmente para marcar o início do espaço.
Os foguetes eram apenas uma parte desse esforço. O Messerschmitt Me 262 tornou-se o primeiro caça a jato empregado operacionalmente em combate, enquanto o Arado Ar 234 levou a propulsão a jato aos bombardeiros e aviões de reconhecimento. Os irmãos Horten desenvolveram aeronaves de asa voadora, entre elas o Ho 229, cuja forma ainda hoje parece surpreendentemente moderna. A Alemanha também colocou em serviço armas guiadas como a Fritz X, utilizada contra navios aliados, desenvolveu o míssil de cruzeiro V-1 e produziu submarinos da classe Type XXI, concebidos para permanecer muito mais tempo submersos do que os U-boats convencionais e que influenciariam projetos do pós-guerra.
Por trás desses equipamentos havia uma extensa infraestrutura de pesquisa e produção. Peenemünde tornou-se um dos principais centros de desenvolvimento de foguetes do mundo, enquanto parte da fabricação dos V-2 foi transferida para instalações subterrâneas como Mittelwerk, construídas para proteger a produção dos bombardeios aliados. Essa tecnologia teve também um lado brutal: milhares de prisioneiros submetidos a trabalho escravo morreram nas condições extremas associadas à fabricação dos foguetes.
É nesse contexto que os supostos projetos RFZ, Vril e Haunebu passam a ocupar um lugar particular na narrativa. Diferentemente dos V-2, dos aviões a jato ou dos submarinos Type XXI, não existe documentação histórica aceita que comprove que esses discos tenham sido construídos e operados como descrevem as fontes posteriores. Mas eles aparecem inseridos numa época em que a Alemanha realmente experimentava tecnologias extremamente avançadas e mantinha projetos militares sob forte sigilo. Para quem posteriormente reuniu essas histórias, essa proximidade entre aquilo que sabemos que existiu e aquilo que teria permanecido escondido tornou-se uma das bases da narrativa dos programas espaciais alemães.
O ponto onde duas histórias se separam
Poucos anos depois da expedição do Schwabenland, a Alemanha nazista entrou em colapso. A guerra terminou em 1945, mas uma parte importante do conhecimento tecnológico acumulado pelo país não desapareceu com o regime. Estados Unidos e União Soviética passaram rapidamente a disputar cientistas, engenheiros, documentos e equipamentos alemães, especialmente aqueles ligados aos programas de foguetes e armamentos avançados.
Nos Estados Unidos, essa incorporação ficou associada à Operation Paperclip, programa que levou ao país mais de uma centena de especialistas alemães, entre eles Wernher von Braun e integrantes de sua equipe. O conhecimento desenvolvido em torno dos foguetes V-2 acabaria participando diretamente da formação do programa espacial americano e, anos depois, do programa Apollo e da chegada do homem à Lua.
Enquanto isso, a Antártida voltava a aparecer na história. Entre 1946 e 1947, a Marinha dos Estados Unidos realizou a Operation Highjump, uma das maiores expedições já enviadas ao continente. Sob o comando do almirante Richard E. Byrd, a operação mobilizou milhares de homens, navios, aeronaves e uma estrutura logística gigantesca para atuar numa região que, poucos anos antes, havia recebido a expedição alemã do Schwabenland.
Oficialmente, Highjump tinha objetivos de treinamento, reconhecimento, testes de equipamentos em condições polares e levantamento de grandes áreas do continente. Mas a proximidade temporal entre o fim da guerra, a presença alemã anterior na região e o tamanho incomum da operação acabaria alimentando uma interpretação completamente diferente.
É justamente nesse espaço entre acontecimentos documentados que outra história começa a crescer.
Na literatura que mais tarde seria associada à Dark Fleet, a Antártida não teria sido abandonada pelos alemães. Instalações secretas teriam continuado funcionando sob o gelo, recebendo pessoal, tecnologia e recursos transferidos antes e depois da derrota do Terceiro Reich. Nessa versão, Highjump não teria sido apenas uma grande operação polar, mas também uma tentativa de localizar, pressionar ou enfrentar essa estrutura sobrevivente.
Os registros públicos da Marinha americana não sustentam essa interpretação, e estudos históricos dedicados ao tema não encontraram evidências documentais de uma batalha contra uma base alemã na Antártida. Mas é exatamente a partir daqui que a narrativa começa a seguir outro caminho: documentos históricos continuam existindo, mas passam a dividir espaço com testemunhos posteriores, reconstruções, relatos de insiders e histórias sobre programas tecnológicos que teriam permanecido fora do conhecimento público.
É nesse ponto que a história da Alemanha do pós-guerra começa, em algumas narrativas, a se transformar na história de uma civilização dissidente.
O Reich termina. O programa espacial alemão não
Michael Salla constrói em Antarctica’s Hidden History uma das versões mais completas dessa transição. Segundo sua reconstrução, teriam existido pelo menos duas linhas diferentes de desenvolvimento tecnológico: uma ligada à Sociedade Vril e aos projetos supostamente inspirados pelos contatos de Maria Oršić, e outra progressivamente militarizada pela SS e por setores industriais alemães. À medida que a derrota do Terceiro Reich se aproximava, parte dessas estruturas teria sido transferida para a Antártida, levando consigo equipamentos, cientistas, técnicos e trabalhadores.
Décadas depois, William Tompkins acrescentaria outro elemento a essa história. Em seu livro Selected by Extraterrestrials, publicado em 2015, Tompkins afirmou ter trabalhado durante a Segunda Guerra junto à Inteligência Naval americana e, posteriormente, na indústria aeroespacial dos Estados Unidos. Segundo seu relato, agentes da Marinha infiltrados em instalações e projetos alemães teriam enviado informações sobre tecnologias muito além daquilo que era conhecido publicamente e também sobre a transferência de parte desses programas para bases na Antártida.
Há, porém, uma distinção importante na natureza de seu testemunho. Tompkins não afirma ter vivido ou trabalhado pessoalmente numa base alemã sob o gelo. O que descreve é o acesso que teria tido, dentro de estruturas militares americanas, a informações produzidas por esses agentes e, mais tarde, sua participação em projetos aeroespaciais altamente compartimentados. O próprio editor de Selected by Extraterrestrials, Robert M. Wood, observa que grande parte do livro foi reconstruída a partir de lembranças de acontecimentos ocorridos muitas décadas antes e que existem algumas imprecisões cronológicas.
Ainda assim, o passado profissional de Tompkins na indústria aeroespacial e a quantidade de detalhes técnicos presentes em seu relato fizeram com que seu testemunho se tornasse uma peça importante na literatura posterior sobre os programas espaciais secretos. Em sua versão, a derrota alemã em 1945 não teria encerrado todo o projeto: uma estrutura paralela teria sobrevivido, continuado a desenvolver sua tecnologia e estabelecido uma presença permanente fora do alcance do mundo conhecido.
E havia algo mais nessa história do que tecnologia: havia uma relação extraterrestre.
O encontro com os Draco
É neste ponto da história que aparecem os Draco, nome usado em boa parte dessa literatura para uma civilização reptiliana associada a Alpha Draconis. Na cosmologia de Elena Danaan, esse povo é chamado de Ciakahrr, mas relatos sobre reptilianos draconianos e sua relação com programas humanos aparecem também em autores e testemunhos anteriores ou independentes dela.
As versões não são idênticas, mas convergem em um elemento central: diferentes autores e testemunhos descrevem uma aproximação entre grupos alemães e forças reptilianas. Entre eles estão William Tompkins, Corey Goode, o pesquisador de exopolítica Michael Salla e, posteriormente, Len Kasten, que reuniu grande parte dessa tradição em Dark Fleet. Em algumas versões, esse contato teria começado ainda durante a Segunda Guerra Mundial; em outras, a aliança teria se consolidado depois, a partir das estruturas alemãs estabelecidas na Antártida.
Na reconstrução apresentada por Salla em Antarctica’s Hidden History, os Draconianos já teriam presença em extensas cavernas sob a Antártida e teriam compartilhado parte dessas instalações com grupos alemães. Essa aproximação daria origem ao que ele chama de uma aliança germano-draconiana, na qual a tecnologia extraterrestre passaria a acelerar enormemente aquilo que os alemães já vinham desenvolvendo. Segundo Salla, seria justamente essa associação que permitiria à estrutura antártica ultrapassar a condição de refúgio ou programa experimental e começar a operar como uma verdadeira potência espacial.
Len Kasten leva essa relação ainda mais longe em Dark Fleet: The Secret Nazi Space Program and the Battle for the Solar System. Em sua reconstrução, os reptilianos teriam fornecido à força alemã tecnologias e armamentos progressivamente mais avançados, enquanto os humanos passariam a atuar ao lado deles em operações militares. Kasten afirma que essa cooperação acabaria ultrapassando as fronteiras do Sistema Solar, com integrantes da Dark Fleet participando de missões de conquista e exploração junto às forças Draco.
Segundo esses relatos, esse encontro teria sido o verdadeiro ponto de ruptura. O programa que começara associado a experimentos tecnológicos alemães e depois teria encontrado abrigo na Antártida passaria agora a ter acesso a conhecimentos, armamentos e rotas que não pertenciam à civilização terrestre conhecida. A partir daí, a história deixa de ser apenas sobre aquilo que teria sobrevivido à Alemanha nazista e começa a se tornar a história de uma força humana entrando num cenário interestelar muito maior.
De uma base para uma civilização dissidente
Existe um conceito importante para compreender a transformação que esses relatos atribuem ao programa alemão: breakaway civilization, expressão normalmente traduzida como civilização dissidente ou separatista. O termo descreve um grupo que nasce dentro de uma sociedade maior, mas que, ao adquirir recursos, conhecimento e infraestrutura próprios, começa progressivamente a funcionar fora dela. Uma organização secreta ainda depende do mundo que a criou; uma civilização dissidente passa a construir condições para seguir seu próprio caminho.
É justamente essa passagem que Michael Salla e Len Kasten descrevem para os grupos estabelecidos na Antártida. O que inicialmente teria sido uma estrutura de pesquisa, produção e defesa passaria a controlar instalações permanentes, construir frotas e estabelecer posições fora da Terra. Kasten descreve uma expansão para a Lua, Marte, Ceres e outros pontos do Sistema Solar, enquanto Salla associa esse processo à formação de uma estrutura industrial cada vez mais autônoma, ligada tanto aos alemães da Antártida quanto a interesses corporativos e militares terrestres.
O próprio nome Dark Fleet surgiria publicamente muito mais tarde do que os acontecimentos atribuídos à sua origem. No prefácio de Ceres Colony Cavalier, Michael Salla situa a primeira referência pública ao termo no início de 2015, quando Goode começou a descrever diferentes programas espaciais secretos e chamou um deles de Dark Fleet. Ainda naquele mesmo ano, William Tompkins apresentaria publicamente seu relato sobre um programa espacial de origem alemã ligado a tecnologias extraterrestres.
Dentro dessa cronologia, portanto, a Dark Fleet não teria surgido pronta. Ela seria o resultado de uma transformação que começa com instalações secretas, passa por uma estrutura espacial independente e acaba assumindo características de uma civilização humana dissidente, capaz de operar muito além do território e do controle da humanidade conhecida.
Ceres: quando a Dark Fleet deixa de ser apenas uma frota
É principalmente através de Tony Rodrigues que essa civilização deixa de aparecer apenas como bases, naves e operações militares e começa a ganhar uma vida cotidiana. Em Ceres Colony Cavalier, Rodrigues afirma ter passado cerca de treze anos em Ceres, oficialmente classificado como um planeta anão e o maior objeto do cinturão principal de asteroides, localizado entre Marte e Júpiter. Segundo seu relato, ele teria chegado ali em 1989, depois de experiências anteriores na Lua e em Marte, integrando uma colônia de origem alemã que ele chama de Ceres Kolonie Gesellschaft.
Seus primeiros trabalhos mostram também que Ceres estaria em permanente expansão. Rodrigues descreve cavernas ativamente escavadas, enormes áreas ainda em construção e equipes utilizando equipamentos para pulverizar a rocha e abrir novos espaços. Em uma de suas primeiras funções, afirma ter sido destinado a recolher os fragmentos deixados por essas escavações, num trabalho pesado realizado próximo ao limite de uma área onde a gravidade artificial já havia sido instalada. Posteriormente, seria transferido para a manutenção de naves e passaria anos trabalhando no cargueiro Blitzbus, antes de ser promovido para funções ligadas ao transporte de cargas.
O Ceres descrito por Rodrigues está muito distante da imagem de uma simples instalação militar. Grandes cavernas no interior do planeta anão teriam sido ocupadas por áreas residenciais, hangares, espaços comerciais e diferentes setores de trabalho. O principal sistema de deslocamento que aparece em seu relato é uma rede de trens, utilizada continuamente para conectar diferentes regiões da colônia. Em alguns lugares, esses trajetos se combinavam com enormes elevadores que desciam por vários níveis até áreas residenciais construídas nas profundezas de Ceres.
Com o tempo, algumas dessas cavernas teriam adquirido aparência ainda mais urbana. Rodrigues descreve locais de convivência, restaurantes e estabelecimentos como o Krums, frequentado não apenas por humanos, mas também por visitantes de outras espécies. Por volta de 1998, segundo sua memória, começaram a ser instalados em algumas das grandes cavernas tetos artificiais capazes de reproduzir um céu azul, nuvens e ciclos semelhantes ao nascer e ao pôr do sol terrestre.
A economia também aparece com detalhes pouco comuns em outros relatos sobre programas espaciais secretos. Rodrigues afirma que havia salários, bônus, contas individuais e uma estrutura que ele chama de trading window, algo entre banco, casa de câmbio, alfândega e centro de negociação de cargas. Quando o cargueiro em que trabalhava começou a gerar mais lucro, os oficiais discutiram se parte dele deveria ser distribuída também aos trabalhadores escravizados. A proposta teria sido aprovada, e Rodrigues afirma que passou a receber uma pequena quantia que lhe permitia circular com maior liberdade pela colônia, comprar coisas e frequentar seus estabelecimentos.
Essa mesma estrutura comercial serviria, segundo ele, para negociar com visitantes extraterrestres. Espécies que não utilizavam moeda poderiam trocar outros recursos — especialmente conhecimento e tecnologia — por poder de compra dentro da colônia. Ao mesmo tempo, Ceres funcionaria como um grande centro logístico: Rodrigues descreve cargueiros transportando mercadorias dentro e fora do Sistema Solar e relações comerciais estabelecidas com civilizações muito distantes.
O que torna seu testemunho particularmente diferente é justamente esse conjunto de detalhes. Em Ceres Colony Cavalier, Ceres não aparece apenas como lugar onde naves pousam ou soldados recebem ordens. Aparece como um centro habitado, com trabalho, transporte, moradia, comércio, lazer, hierarquias sociais e relações econômicas com outros mundos. Dentro da narrativa da Dark Fleet, é talvez o ponto em que a ideia de uma base secreta definitivamente começa a dar lugar à imagem de uma sociedade funcionando fora da Terra.
O triângulo da Dark Alliance
É com Elena Danaan que a Dark Fleet ganha uma posição mais definida dentro de uma geopolítica extraterrestre. Em We Will Never Let You Down, ela descreve a Dark Alliance — Aliança Sombria como uma estrutura formada por três forças distintas: os Nachtwaffen, a componente humana associada à Dark Fleet; os Ciakahrr, império reptiliano originário de Alpha Draconis; e os Nebu, uma estrutura imperial composta por diferentes grupos Grey de Órion, associada principalmente aos Eban de Betelgeuse.
Na narrativa de Danaan, esse triângulo não funcionaria como uma cadeia simples de comando em que uma espécie controla todas as outras. Cada vértice permaneceria uma força própria, ligada simultaneamente aos outros dois por interesses comuns. Em outra passagem de We Will Never Let You Down, ela afirma inclusive que os Nebu teriam tentado estabelecer uma aliança com os alemães, mas estes já estariam comprometidos com os Ciakahrr. Os Nachtwaffen aparecem então como uma força humana independente, desenvolvida sob forte influência reptiliana, mas capaz de trabalhar tanto com os Ciakahrr quanto com os Nebu.
Essa distinção é importante porque coloca a Dark Fleet numa posição diferente da de simples braço humano do Império Ciakahrr. Dentro dessa cosmologia, ela teria se tornado um ator político e militar próprio, capaz de negociar, estabelecer alianças e administrar seus próprios territórios, embora profundamente integrada às duas potências extraterrestres com as quais cooperava. A associação teria como interesse comum o controle da Terra e de posições estratégicas no Sistema Solar.
Essa aliança também teria deixado uma geografia bastante concreta. Danaan descreve presença da Dark Fleet e dos Nebu na Lua, onde existiriam instalações, áreas de mineração e estruturas ligadas ao trabalho escravizado. Ceres, já apresentado no testemunho de Tony Rodrigues como uma colônia alemã, aparece na cosmologia de Danaan como um dos principais postos da Dark Fleet no Sistema Solar e teria sido originalmente uma instalação Nebu posteriormente compartilhada com a organização humana.
Marte, porém, talvez seja o lugar onde essa colaboração aparece de forma mais clara. Em We Will Never Let You Down, Danaan descreve o planeta como dividido em grandes distritos e instalações pertencentes a diferentes forças. A principal colônia humana seria Aries Prime, estabelecida, segundo ela, desde meados da década de 1940 e vinculada à Dark Alliance. A instalação se estenderia majoritariamente sob a superfície e reuniria quatro estruturas principais: um centro de comando, uma área de pouso, um núcleo militar e uma base Ciakahrr conectada ao setor humano por um longo túnel subterrâneo. Danaan acrescenta ainda que os distritos humanos utilizariam um sistema de inteligência artificial inspirado em tecnologia Nebu, fazendo de Aries Prime quase uma representação física do próprio triângulo: humanos, Ciakahrr e tecnologia Nebu trabalhando dentro da mesma estrutura.
Assim, na cosmologia de Danaan, a Dark Alliance não seria apenas um acordo distante entre três grupos. Ela teria produzido bases compartilhadas, tecnologia combinada, rotas, territórios e operações conjuntas espalhadas pela Terra, Lua, Marte e Ceres. A Dark Fleet continuaria humana em sua origem, mas já não responderia à humanidade terrestre: passaria a atuar como uma força própria dentro de uma aliança muito maior.
Aldebaran e a expansão além do Sistema Solar
Aldebaran já havia aparecido no começo desta história, através das supostas comunicações recebidas por Maria Oršić. Na cosmologia de Elena Danaan, essa conexão volta a surgir de maneira ainda mais direta: Aldebaran, chamado Jada, teria se tornado o principal centro da Dark Fleet fora do Sistema Solar. Em We Will Never Let You Down, Danaan afirma que, enquanto alguns modelos de discos ainda seriam produzidos na Terra, grande parte das outras naves da organização seria fabricada no sistema de Jada, onde estaria localizada sua sede principal. Outros postos importantes existiriam em Jahya, nome dado a Alcyone, nas Plêiades, e em Akhoria, no sistema de Altair.
A ligação com Aldebaran ganha uma curiosidade adicional quando voltamos à história de Maria Oršić. Em A Gift from the Stars, Danaan descreve Jada como um vasto sistema de treze planetas, habitado por diferentes civilizações. Uma delas seria a colônia Jadaii Anunakene, um grupo Anunnaki instalado no planeta Kora 361. Segundo sua versão, teriam sido precisamente esses Anunnaki de Aldebaran que estabeleceram contato com Maria Oršić em 1919 e se comunicado com ela em uma antiga língua suméria. O mesmo sistema abrigaria também os Jadaiahel, uma colônia humana Ahel de origem lyrana, que Danaan descreve como pacífica e não envolvida com a Dark Fleet.
A rede da organização, porém, não terminaria em Aldebaran. Em Alcyone (Jahya), os Taal-Shiar — um grupo humano descendente dos Taali, povo de origem lyrana, que teria rompido com outras colônias pleiadianas e posteriormente se aliado aos Nebu — aparecem profundamente envolvidos com a Dark Fleet. Danaan afirma que eles teriam fornecido à organização dois grandes cargueiros pleiadianos de formato tubular e mantido inclusive uma pequena instalação própria sob a Antártida.
Em Altair, outra peça dessa rede seriam os Akhori, humanoides cuja principal civilização está instalada no planeta Akhoria. A Encyclopedia Galactica descreve os Akhori como uma cultura politicamente ambígua, envolvida em diferentes alianças conforme seus interesses, e menciona sua cooperação com os Taal-Shiar, os Ciakahrr e estruturas associadas à Dark Fleet. O mesmo sistema abriga ainda o planeta Markhat, centro de um coletivo no qual uma divisão da Dark Fleet continuaria presente posteriormente.
Essas relações ampliam bastante o quadro apresentado pelo triângulo Nachtwaffen–Ciakahrr–Nebu. Esse continuaria sendo, na narrativa de Danaan, o núcleo da Dark Alliance, mas ao redor dele existiria uma rede maior de parceiros, fornecedores e interesses: os Anunnaki de Aldebaran, os Taal-Shiar de Alcyone, os Akhori de Altair e outros grupos que cooperariam com a organização sem necessariamente fazer parte de sua estrutura central. A Dark Fleet já não apareceria, portanto, apenas como uma força humana instalada em diferentes pontos do Sistema Solar, mas como uma organização interestelar de origem terrestre integrada a uma rede política e comercial muito mais ampla.
2021: A Guerra pelo Sistema Solar
Na cronologia apresentada por Elena Danaan, 2021 teria marcado o colapso da Dark Alliance dentro do Sistema Solar. O conflito envolveria, de um lado, a Dark Fleet, os Ciakahrr e os Nebu; do outro, forças da chamada Earth Alliance — Aliança da Terra, uma coalizão de grupos humanos que, na narrativa de Danaan, atuaria contra a Dark Alliance —, apoiadas pela Federação Galáctica dos Mundos e por outras organizações extraterrestres. Em Marte, a essas forças se somaria ainda uma resistência formada por populações locais que, segundo Danaan, teriam sido treinadas e equipadas para participar da retomada do planeta.
A primeira grande mudança teria ocorrido entre janeiro e fevereiro, com a retomada da Lua. Danaan descreve instalações Nebu e um importante posto da Dark Fleet no lado oculto, associados à mineração, ao transporte de trabalhadores escravizados e à redistribuição de pessoas para outros pontos do Sistema Solar. A operação teria expulsado da Lua tanto os Nebu quanto a Dark Fleet e libertado os prisioneiros mantidos nessas instalações.
Em 5 de abril, começariam as operações em Marte. Pouco mais de um mês depois, em 14 de maio, a Federação teria conseguido decodificar as chamadas chaves de frequência utilizadas pelos portais dos Nebu no Sistema Solar, bloqueando essas rotas e capturando parte de seu comando. Em 6 de junho, chegaria a vez da Antártida: as instalações ligadas à Dark Fleet seriam abandonadas ou tomadas, produzindo o que Danaan descreve em We Will Never Let You Down como um verdadeiro êxodo. Parte dos integrantes teria tentado partir através de portais para colônias fora do Sistema Solar, enquanto outros deixariam o continente por meios convencionais.
A batalha por Marte prosseguiria até 5 de julho. Naquele momento, Danaan relata que as principais instalações Ciakahrr já haviam sido retomadas e seus trabalhadores escravizados libertados. Mas a própria Dark Fleet ainda não teria sido derrotada por completo: continuaria presente em Ceres e em outros postos do Sistema Solar, embora enfraquecida e temporariamente isolada de seu centro em Aldebaran.
Com a vitória militar já parecendo próxima, o conflito ganharia também uma frente diplomática. Entre 14 e 17 de julho, ocorreriam os chamados Acordos de Júpiter, uma série de reuniões realizadas numa instalação protegida do Comando Galáctico Ashtar, outra organização extraterrestre aliada dentro dessa cosmologia. Participariam representantes da Federação Galáctica dos Mundos, do Conselho Zenae de Andrômeda, do Conselho dos Cinco — outras organizações que aparecem na narrativa de Danaan — e de forças militares terrestres. Nessas reuniões, teriam discutido como seriam divididos, utilizados e protegidos os territórios e as atividades econômicas e militares do Sistema Solar depois do conflito. Danaan compara essas negociações a acordos realizados entre os Aliados ainda antes do encerramento da Segunda Guerra: a guerra não havia acabado completamente, mas já se discutia o mundo que existiria depois dela.
Ceres seria uma das últimas questões a resolver. Em 21 de agosto, Danaan relata que a Federação, o Conselho Zenae e a Earth Alliance teriam decidido não evacuar a grande população civil instalada ali havia décadas. Os habitantes seriam reconhecidos como residentes do planeta anão, enquanto apenas o aparato militar Nachtwaffen deveria deixar a colônia, inicialmente por negociação e, se necessário, pela força. Essa distinção é particularmente interessante porque coincide com a descrição de Tony Rodrigues de Ceres não apenas como base militar, mas como uma sociedade com população civil permanente.
Em 28 de agosto de 2021, Ceres apareceria na cronologia de The Seeders entre os últimos territórios do Sistema Solar retirados do controle da antiga aliança. Ao longo dos meses seguintes, as operações continuariam também nas instalações subterrâneas da Terra e em outros postos menores; até o fim daquele ano, Danaan considera encerrada a presença dominante dos Nebu e Ciakahrr no sistema e derrotada a divisão da Dark Fleet que operava aqui.
A derrota, porém, dizia respeito à presença da Dark Fleet no Sistema Solar, não à organização como um todo. Como a própria presença em Aldebaran já indicava, sua estrutura teria criado centros, alianças e rotas muito além de Sol. A guerra de 2021 encerraria, dentro dessa narrativa, um capítulo iniciado na Antártida muitas décadas antes — mas não a história da Dark Fleet.
Uma humanidade dividida antes mesmo de se tornar interestelar
Nas outras histórias de Nações Estelares, estamos acostumados a encontrar povos que vêm de outros mundos. Alguns se parecem muito conosco; outros quase nada. Há civilizações que atravessaram diásporas, perderam planetas, encontraram novas estrelas e, ao longo do tempo, acabaram se transformando em povos diferentes daqueles que lhes deram origem. A Dark Fleet inverte essa perspectiva, porque sua história começaria aqui mesmo, na Terra, com seres humanos.
A humanidade ainda não é uma civilização interestelar. Enviamos sondas para regiões cada vez mais distantes do Sistema Solar, mantemos presença humana temporária em órbita e caminhamos sobre a Lua há mais de meio século, mas nenhum representante oficialmente reconhecido da humanidade visitou outra estrela. Ainda estamos nos primeiros passos dessa história.
E, no entanto, a narrativa da Dark Fleet propõe algo desconcertante: antes mesmo de nossa espécie chegar oficialmente às estrelas, uma parte dela já teria se separado do restante da humanidade. Enquanto bilhões de pessoas continuavam vivendo na superfície da Terra, atravessando guerras, construindo cidades e acompanhando pela televisão os primeiros passos da exploração espacial, outro grupo de humanos supostamente já estaria desenvolvendo sua própria tecnologia, estabelecendo bases fora do planeta, formando alianças com outras civilizações e construindo uma estrutura política e econômica que não respondia mais aos governos conhecidos da Terra.
Depois de algumas décadas, essa separação deixaria de ser apenas tecnológica. Pessoas poderiam nascer em Ceres, Marte, Aldebaran ou em outras colônias sem jamais ter vivido na Terra. Cresceriam dentro de outra sociedade, com outras referências, outros interesses e talvez outra forma de compreender o próprio lugar no universo. Continuariam biologicamente humanas, mas a pergunta passaria a ser até que ponto ainda pertenceriam à mesma civilização que ficou para trás. Eles seriam nós — mas talvez já não se reconhecessem como parte do mesmo mundo.
Essa ideia continua interessante, independentemente de acreditarmos ou não na existência da Dark Fleet. Quando a humanidade finalmente puder viver de forma permanente fora da Terra, nada garante que partirá como uma única civilização. Estados, corporações, grupos privados ou comunidades inteiras poderão levar consigo interesses, valores e projetos muito diferentes. Viajar para outra estrela não significa necessariamente carregar junto toda a humanidade.
A Dark Fleet leva essa possibilidade ao extremo. Sua história sugere que a fragmentação teria começado enquanto a viagem interestelar ainda permanecia fora da história pública, como se uma parte da espécie já tivesse escolhido seu próprio futuro enquanto o restante ainda olhava para o céu imaginando quando chegaria a sua vez.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas quando chegaremos às estrelas.
Mas qual humanidade chegará até elas?